Estabelecimento é especializado em culinária árabe

Fonte por Rodolfo Mageste para Jornal O Globo

Desde 2011 o mundo acompanha atônito o drama da Síria. Estima-se que os seis anos de guerra civil no país já tenham deixado um rastro de aproximadamente 500 mil mortes, e provocado o êxodo de cinco milhões de pessoas. Números assustadores, da maior crise humanitária do século XXI, de acordo com a ONU. Na luta pela sobrevivência, muitos sírios procuram refúgio no Brasil. Uma dos destinos é a Tijuca, onde um estabelecimento de comida árabe se tornou ponto de referência — e até mesmo abrigo — para estes refugiados: o restaurante Camelo’s, na Rua Soares da Costa 69, nos arredores da Praça Saens Peña.

O proprietário da casa é o comerciante Taj Din, um brasileiro de ascendência síria.

— Nasci no Rio. Minha mãe também era brasileira, mas filha de sírios. Já meu pai era sírio. Quando eu tinha 8 anos, em 1966, fui morar na Síria, onde vivi por 11 anos. Peguei inclusive a Guerra dos Seis Dias (em 1967). Depois, fui estudar Engenharia na Romênia. Retornei ao Brasil, em 1981. Mas segui indo à Síria ocasionalmente — conta Din.

Morador da Tijuca, há seis anos ele abriu o restaurante (coincidentemente, no mesmo ano em que a guerra civil teve início). Assim que o conflito se intensificou, Din começou a receber os primeiros pedidos de ajuda.

— Tenho muitos amigos e parentes na Síria. Em 2012, entraram em contato comigo pela primeira vez: um sírio, filho de um amigo da minha época de escola, estava refugiado e chegaria ao Brasil. Fui buscá-lo no aeroporto. Desde então, ao todo, recebi 12 pessoas na mesma situação. Sempre dou abrigo no início, até que o indivíduo caminhe com as próprias pernas. Hoje, a maioria trabalha ou tem o próprio negócio — revela o empresário.

Por medo de que qualquer notícia a seu respeito chegue à Síria, com a velocidade da informação veiculada via internet, os refugiados não quiseram conversar com a equipe do Jornal Globo-Tijuca. Temem que suas famílias possam sofrer represálias. Por isso, seus nomes também não serão revelados na reportagem.

— Os refugiados chegam ao Brasil sem saber quase nada sobre o país. Jogados à própria sorte. Sem falar português, sem terem sequer se preparado para deixar a Síria. Desembarcam no aeroporto só com a roupa do corpo. Imagina cair em um outro país, fugido, sem conhecer ninguém? — descreve Din.

Todos os sírios recepcionados pelo empresário são encaminhados para as autoridades brasileiras.

— É a primeira coisa que faço: legalizo a situação deles, para que comecem a ter um rumo. O governo brasileiro simplificou muito o processo de legalização. A Cáritas Arquidiocesana do Rio (entidade de atuação social da Igreja Católica) ajuda muito nesse processo. Eles fazem uma entrevista com os refugiados, na qual eu sirvo de intérprete, e preenchem os documentos necessários para que possamos encaminhá-los para a Polícia Federal — explica Din.

Com o documento emitido, o refugiado passa a ter uma série de direitos, semelhantes ao de um cidadão brasileiro. Desde 1997, o Brasil conta com o Estatuto do Refugiado, além de um órgão para analisar os pedidos de asilo, o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare).

— Isso é muito nobre por parte do governo brasileiro. Muitos dos sírios que chegam aqui já passaram por outros países e foram expulsos. E chegam ao Brasil com essa recepção maravilhosa — elogia o proprietário do Camelo’s.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores, dos quase nove mil refugiados no Brasil, de 79 nacionalidades, os sírios compõem a maior colônia, próxima de três mil pessoas.

O próximo passo é empreender

Assim como Taj Din, a maioria dos refugiados aposta na culinária árabe para sobreviver. Aliás, alguns recomeçaram a vida trabalhando no próprio restaurante Camelo’s, como explica o proprietário da casa.

— Um dos sírios que ajudei é um cozinheiro internacional. Trabalhou dois anos comigo. Mas ele fazia as minhas receitas. Na Síria, as receitas são muito regionais, familiares. Então cada um tem seu jeito de fazer a comida — relata Din.

Ele deixa claro que, não importa o chef, o restaurante mantém o estilo característico do dono.

— A minha comida é árabe, 100% original, feita com produtos da Síria, matéria-prima proveniente da minha propriedade nas montanhas de Tartus (na parte ocidental do país). Como o sumac (tempero em pó vermelho, ácido como limão) que utilizo nas receitas — conta o empresário. — No Brasil a comida árabe é muito “genérica”.

Din toma todas as precauções necessárias quando estabelece algum tipo de contrato com um refugiado.

— Colocá-los para trabalhar na cozinha, logo de cara, sem as devidas documentações e autorizações, poderia gerar um grande imbróglio judicial. A fiscalização é bem grande. Por isso, de início eu apenas ofereço moradia e comida. O que chegou mais recentemente, por exemplo, não está apto a trabalhar e nem fala uma palavra de português. Por isso apenas está morando num quarto adaptado dentro do meu escritório — explica o comerciante.

Simpático e bom de papo, Din trata todos os “compatriotas” pelo apelido de “habib” (“querido”, em árabe).

— Muitos dos refugiados são engenheiros, médicos. Uma vez veio me visitar no restaurante um que era até apresentador de televisão na Síria! Mas eles não têm condições de exercerem a profissão aqui no Brasil. E muito menos dinheiro para abrir um negócio próprio. Mas como são muito esforçados, eu os oriento para que eles mesmos possam, pelo menos, fazerem os seus quibes e esfirras e, quando puderem, sair vendendo por aí — diz.

Aos poucos, alguns refugiados começam a ter êxito na atividade comercial. Um dos sírios acolhidos por Din, que chegou ao Brasil há um ano, conseguiu um ponto em Vila Isabel, onde vende quitutes da culinária árabe. Casou-se com outra refugiada e o casal já teve um filho.

— Muitos estão bem hoje em dia e conseguem até mandar dinheiro para a família. A prefeitura do Rio tem facilitado bastante a emissão de licença para que esse tipo de profissional trabalhe na rua — elogia o empresário.

Apesar da boa recepção do governo e do povo brasileiro, muitos sírios enfrentam dificuldades de adaptação. E, mesmo tendo passado por uma guerra civil, se assustam com a criminalidade do Rio.

— Eles sentem muita diferença no trato, no respeito. Os sírios são um povo muito educado, em todos os sentidos. Para se ter uma ideia, o índice de analfabetismo no país é muito pequeno, só atinge mesmo pessoas que moram em localidades isoladas, no deserto. E apesar do estado de guerra, eles não são acostumados com roubos, latrocínios. A Síria era um lugar onde você podia deixar a janela do seu carro aberta, que ninguém roubaria — relata Din.

Por conta do histórico recente de conflitos nos países árabes de uma forma geral, além de atentados cometidos por radicais islâmicos em todo o mundo, há também a questão do preconceito contra os muçulmanos.

— É importante frisar que, de acordo com o Alcorão (o livro sagrado do islamismo), matar é pecado — destaca o dono do Camelo’s.

Com seus prós e contras, o Brasil, por ser um lugar mais aberto à imigração que países da Europa, por exemplo, segue sendo uma opção de destino para os sírios, como afirma Din.

— Na semana passada, por exemplo, uma prima distante me procurou, via WhatsApp, querendo mandar o filho dela para cá — conta o empresário, que acredita também que dias melhores virão para seu povo. — A paz chegará. Aos poucos as coisas estão melhorando.

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