O orgulho de ser do bairro - Fotos Fábio Gonçalves e André Luiz Mello

O orgulho de ser do bairro.

Um bairro com três escolas de samba, quatro estações de metrô e que guarda nossas maiores relíquias - os restos mortais de Estácio de Sá e o marco da fundação da cidade do Rio de Janeiro - não é um bairro qualquer. Entre incontáveis peculiaridades, a Tijuca é o bairro com a maior quantidade de clubes na cidade e foi o primeiro a ver bondes circulando em suas ruas.

Parte dos amplos domínios dos jesuítas, no século XVIII, quando os religiosos foram expulsos de Portugal – e, consequentemente, do Brasil –, a área onde fica a Tijuca foi dividida em chácaras, depois loteadas em grandes terrenos.

Até a década de 1930, o bairro abrigava ricos e aristocratas. Só quando a Zona Sul começou a ser ocupada é que a Tijuca recebeu seus novos moradores: funcionários públicos, militares e famílias de classe média. Tudo isso sem perder o ar aristocrático.

Carlos dos Santos tem 78 anos, é pesquisador, ex-bancário, ex-funcionário público e não esconde seu maior orgulho: fazer parte da Tradicional Família Tijucana, TFT para os íntimos. Tem uma memória privilegiada e, entre tantas coisas que coleciona, como carrinhos, réplicas de aviões de guerra e máquinas fotográficas, chamam a atenção os recortes de jornal e as fotografias do lugar onde mora desde que nasceu. “Faço questão de preservar as raízes que tenho com o bairro onde nasci”, conta o pesquisador, que morou nas ruas Radmacker e Conde de Bonfim, e atualmente na rua Uruguai.

Faço questão de preservar as raízes que tenho com o bairro onde nasci.
Carlos dos Santos

Quando o assunto é Tijuca, a expressão deste senhorzinho muda, os olhos brilham, as mãos se agitam e ele dispara a falar. Diz que o bairro é um dos únicos do Rio de Janeiro que tem hino e brasão. E vai além: o morador da Tijuca é o carioca que mais se identifica com seu gentílico. “Todo tijucano se ufana de dizer que é tijucano. Não me pergunte o por quê”.

O pesquisador guarda muitas histórias e curiosidades sobre o bairro e conta que na Tijuca existe uma hierarquia nobiliárquica. Quase ninguém sabe, mas é o bairro que tem a maior quantidade de ruas com nomes de nobres. Desde a Conde de Bonfim, passando pela Barão de Mesquita, até a Barão de Itacuruçá e Visconde de Cabo Frio. “Outro detalhe que poucos sabem é que o Conde de Bonfim era pai do Barão de Mesquita, que por sua vez, era sogro do Barão de Itacuruçá”.

Mas a Tijuca, apesar de todo esse ar de nobreza que preserva até hoje, recentemente viveu uma fase decadente. No final da década de 1980, a região foi tomada por crescente violência. Os tiroteios eram comuns entre as comunidades do bairro como Salgueiro, Borel e Formiga. Com a chegada das UPPs e a inauguração da estação do Metrô na Rua Uruguai, a situação melhorou. Até mesmo novos empreendimentos imobiliários voltaram a surgir no bairro e os imóveis valorizaram novamente. “Nos anos 1990, houve imóvel que teve até 90% de desvalorização”, diz Jaime Miranda, presidente da Associação Comercial e Industrial da Tijuca.

Jaime é de Niterói, mas desde a década de 1980 vive na Tijuca. Namorou, casou, teve uma filha e hoje é conhecido no bairro, principalmente nos arredores da Praça Saens Peña. Ele diz que se encantou pela Tijuca quando conheceu a mulher. Atravessava a Baía de Guanabara para namorar quase que diariamente. “Comecei a frequentar a Floresta da Tijuca, a Barra da Tijuca e conheci as lagoas da Tijuca”.

Ele afirma que o comércio no bairro ainda é muito forte e que, no passado, havia muitas indústrias na Tijuca. Foram todas fechadas. “São 1350 estabelecimentos comerciais só no entorno da Praça Saens Peña e algo em torno de 24 mil alvarás de estabelecimentos comerciais”, conta empolgado.

Uma parceria com a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ resultou em doze projetos para a revitalização da Praça Saens Peña e de seu entorno. Os projetos devem ser expostos ainda este ano para comemorar o aniversário do bairro, que em junho completa 256 anos, com muita disposição para crescer.

 

Por Marcio Allemand para o Jornal O Dia 

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