História do Grajaú

O Grajaú surgiu em um vale, conhecido como Vale dos Elefantes, ao sopé do Maciço da Tijuca e, mais especificamente, da Serra do Andaraí, onde se encontra a Pedra Perdida do Andaraí, popularmente conhecida como Pico ou Bico do Papagaio, que constitui um dos símbolos do bairro.

Sua origem, nas primeiras décadas deste século, foram dois grandes loteamentos realizados no antigo arrabalde do Andaraí Grande , que incorporaram terras de fazendas de café à malha urbana da cidade. O primeiro loteamento foi realizado pela Companhia Brasileira de Imóveis e Construções e compreendia as terras situadas entre a Serra do Engenho Novo e um caminho posteriormente denominado Rua Borda do Mato. O outro, chamado Vila América, foi promovido pela T. Sá e Companhia Limitada e englobava os terrenos que iam deste ponto ao que hoje é a rua Botucatu.

A partir dos anos 20, o bairro desenvolveu-se com o desenho do primeiro loteamento. Posteriormente, na década de 80, o Grajaú estendeu-se até o lado direito da rua Ferreira Pontes, incorporando toda a parte do Andaraí que correspondia ao loteamento de Vila América. Entretanto, mesmo unificadas no plano urbanístico, estas duas regiões constituem duas áreas distintas do/no bairro. O formato atual do Grajaú foi definido pelo seu Projeto de Estruturação Urbana/PEU: suas ruas descem das encostas do Maciço da Tijuca até as ruas mais exteriores (Visconde de Santa Isabel, Barão de Bom Retiro, Meira de Vasconcelos e Ferreira Pontes), que constituem suas divisórias com os bairros do Engenho Novo, Lins de Vasconcelos, Vila Isabel e Andaraí. Ao contrário destes seus vizinhos, porém, é tido como um bairro nobre, uma vez que em seu "miolo", que corresponde ao primeiro loteamento e à sua configuração territorial original, é um bairro estritamente residencial, com belas casas e alguns edifícios luxuosos habitados por segmentos da alta classe média.

Já a parte do Grajaú que corresponde ao loteamento Vila América é constituída por um conjunto de ruas que, terminando nas encostas, dão acesso a favelas e compreendem uma população de menor poder aquisitivo. Há ainda uma terceira área do bairro, considerada mais periférica, que é formada pelas ruas externas que dão acesso direto a outros bairros. Transformadas em "ruas de passagem", seus imóveis tem menor valor comercial e são habitados por segmentos de classe média.

Essa diversidade de regiões no bairro teria sido gerada, segundo Cardoso (1989), pelos distintos modos de atuação das duas companhias responsáveis pelos loteamentos, que representavam segmentos diferenciados do capital imobiliário. Enquanto a T. Sá restringia-se à promoção fundiária e à obtenção de lucro nas transações comerciais, a perspectiva da Companhia Brasileira era a extração de lucro nas operações financeiras. Para isso construía moradias e as vendia através de um sistema de financiamento próprio. Buscando "atingir um mercado ainda bastante restrito na cidade: segmentos das camadas médias da população de maior poder aquisitivo ... que antes pagavam aluguel", mas que podiam arcar com esse financiamento, realizou obras de arruamento, loteamento, instalação de infra-estrutura de água, calçamento de ruas e construção de diversas moradias para venda. O projeto de um bairro de "fisionomia moderna" com residências amplas, ruas largas e traçadas em simetria a partir de uma praça (a Edmundo Rego), com "calçadas largas e ajardinadas, lotes também regulares e com testadas largas" visava atrair esses segmentos, criando "um bairro residencial de elite dentro de uma área da zona norte ocupada primordialmente por velhas construções e diversas fábricas".

A T. Sá, ao contrário, preocupada exclusivamente em obter o maior lucro possível na venda de terrenos, projetou o Vila América com quadras irregulares, lotes de testadas menores e formatos irregulares, que se traduziam em terrenos de preços mais acessíveis, e se limitou a efetuar as obras de arruamento indispensáveis. Além disso, não preocupou em conferir ao bairro um caráter residencial, vendendo uma quadra inteira para a Fábrica de Projetis de Artilharia do Exército.

Assim, desde sua origem, o Grajaú comporta "espaços com usos e conteúdos diferentes", que ainda hoje se expressam na diversidade dos equipamentos urbanos disponíveis em cada um dos mesmos e nos diferentes valores dos imóveis (Cardoso, 1989: 99) e que se manifesta também nas diversas percepções a respeito do bairro, de suas fronteiras e relações de pertencimento.

Fonte: Grajaú, memória e história: fronteiras fluidas e passagem. Márcia Pereira Leite

 

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